Brumadinho: uma tragédia anunciada

A queda da barragem do complexo Mina do Feijão da mineradora Vale, que liberou quase 13 milhões de metros cúbicos de lama tóxica e resultou em uma nova tragédia em Minas Gerais, nos leva a várias reflexões sobre a questão ambiental no Brasil.

A primeira delas seria: como após a catástrofe de Mariana em 2015, e diante de tantos alertas e recomendações feitos na época, um acidente com as mesmas características poderia acontecer na mesma região.

Um outro aspecto a ser refletido é como o Brasil, onde as autoridades não se cansam de afirmar que possuímos uma das melhores legislações ambientais do mundo, um acidente dessas proporções pode se repetir em um curto espaço de tempo. Parece que as respostas a essas indagações vêm sendo noticiadas diariamente pelos meios de comunicação, como por exemplo:

1) A empresa responsável por esse acidente, a Vale, só nas eleições de 2014 aplicou
mais de 70 milhões de reais em “apoio” a candidatos ao Congresso Nacional. Não
por coincidência, nenhuma das várias propostas de novas leis para evitar tais
acidentes foi aprovada no Congresso nos últimos anos, embora tenha havido
inúmeras propostas apresentadas por instituições técnicas e científicas de
renome no Brasil.

2) Há apenas algumas dezenas de técnicos de órgãos ambientais para fiscalizar as
milhares barragens localizadas no território brasileiro.

3) Embora a imprensa tenha divulgado durante semanas, na época do primeiro acidente, que
dezenas de ações judiciais foram propostas pelo Ministério Público Estadual, Federal, dentre outras instituições, praticamente nenhuma ação chegou ao final e, dessa forma, não houve até agora qualquer punição dos responsáveis pela tragédia de Mariana.

Esse outro acidente, ocorrido em Brumadinho, está provocando uma
comoção muito maior do que em Mariana, tendo em vista que no de 2015 dezenove vidas
foram perdidas, e no atual o número de vítimas fatais está aumentando em bem
mais de 1000% e pode ultrapassar 300 mortes!

Os fatores citados ajudam a explicar como barragens obsoletas e com potencial de dano muito elevado não foram modificadas ao longo desses anos, embora tenha havido dezenas de alertas e denúncias de renomados especialistas no assunto. A barragem que rompeu em Brumadinho, construída com uma tecnologia chamada de alteamento a montante, apresentava um elevado risco de acidentes ao ponto de vários países já terem proibido a sua utilização.

Os danos ambientais do acidente atual somados àqueles do acidente de 2015, que foram principalmente a inundação de cidades com rejeitos contaminantes com metais pesados, resultam em consequências alarmantes ao meio ambiente, aumentando substancialmente o tempo necessário para uma efetiva recuperação de todos os ecossistemas afetados.

Para fazer frente a esses desastres, o Brasil precisaria de um Poder Executivo, tanto Federal quanto Estadual, muito comprometido com a causa ambiental. Porém, ironicamente, a maior autoridade ambiental do país, o recém-empossado Ministro do Meio Ambiente, acabou de ser condenado pela justiça de São Paulo por crimes ambientais, exatamente por ter alterado planos de manejo de unidades de conservação para favorecer mineradoras, as grandes vilãs desses acidentes analisados acima.

Portanto, o que podemos concluir é que essa segunda tragédia de rompimento de barragem ocorreu, claramente, devido a uma má gestão e à ineficiência da fiscalização das autoridades competentes. Assim, esperamos, e temos que cobrar, uma mudança de atitude em prol da defesa do meio ambiente por parte dos nossos governantes para que desastres de mesma natureza sejam evitados e os responsáveis sejam devidamente punidos.

 

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